sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O ANÃO DO AÇOUGUE - IV

 A SOLIDÁO É UMA PEDRA TUMULAR.

Era uma manhã mais ou menos como esta: cinza e soluçante. Eu me recuperava mais ou menos da perda. Entrei naquele açougue para comprar carne. Um anão saiu dos fundos e veio me atender. Tomei um susto. Nunca tinha visto aquela criaturinha antes. Conversando com ele, me disse que já estava ali há anos, eu é que nunca havia reparado nele.
“Como pode isso ter acontecido, não é mesmo meu camaradinha?” Brinquei. O anão que se chamava Da Cruz, fez um gesto amigável do tipo, Ah, deixa pra lá. Fui para casa pensando no anão. Seu aventalzinho sujo de sangue. Os olhos tristes e baixos de um cãozinho desamparado atestavam cuidados paternos. O anão preencheria o meu vazio. No dia seguinte, voltei lá para conversar um pouco mais com o anão:
 “Escuta, meu camaradinha, cê gosta do que faz aqui?” O anão me olhou assim e disse:
“Pra ser sincero, meu patrão, não gosto, não. Ganho mal e já não posso mais pagar o aluguel.”
“Quê cê sabe fazer?”

“Sei cozinhar e muito bem.”

“Quer vir morar comigo?” Os olhinhos do anão brilharam. Aquilo quis dizer um sim. Levei o anão para morar comigo. Não sei viver sozinho. A solidão é uma pedra tumular...

V – O ANÃO

Era estranho ter um anão em casa. Mas Da Cruz estava me saindo melhor que a encomenda: lavava, passava, cozinhava. Passou a cuidar das minhas unhas também. Pés e mãos. Coisa que Selminha já não fazia mais. Quando a mulher se descuida das unhas do marido, é porque sua devoção por ele acabou. A devoção de Selminha por mim tinha acabado há muito tempo. Eu é que ainda não havia sacado isso ou não queria ver. Mas voltamos ao anão. Ele e eu ficamos amigos. Como se fossemos marido e mulher de verdade bem no início de uma relação. Nos fins de semana – para compensar todo o seu empenho doméstico – eu o levava para passear no cais. Mostrava-lhes os navios como fazia meu finado pai. Numa ocasião, expliquei a ele:

“Meu pai trazia-me sempre aqui para olhar os navios. Mas eu não sou seu pai, entendeu?” Ele apenas ria, divertindo-se com os mergulhões. Depois íamos bebericar pelos botecos adjacentes da orla. As pessoas olhavam para nós dois. Era divertido. Os amigos de copo diziam:

“Mário Augusto enlouqueceu! Deixou Selminha para viver com um anão.” Mas eu não ligava muito pra isso, não.  Havia retomado minha ordem cerebral. Um sopro novo de vida, o anão me trouxe. Lia para ele os meus contos. Velhos e novos. Tinha agora com quem compartilhar as minhas estórias malucas. Selminha não tinha mais paciência de ouvir minhas estórias. Achava-as absurdas demais. Dizia que eu não tinha visão romântica. Acho que nunca tive mesmo. Mas o anão gostava do que eu escrevia. Ouvia minhas estórias com atenção enquanto batia as roupas no tanque. Aqui ou ali, um palpite. Experimentava uma felicidade momentânea ao lado daquela criaturinha que vi de repente, surgir. Sim, surgir. Da Cruz era uma prova empírica daquilo que sempre acreditei: anões não nascem. Surgem.

Depois que a grana do Inseguro-Desemprego acabou, a coisa ficou preta de verdade. Avisos de cortes na água, luz, telefone... Precisava arranjar um trampo qualquer. Já estava ficando desesperado quando – certa noite, ao regressar para casa – dei com uma cena estranha e engraçada: o anão masturbava-se freneticamente no sofá da sala, assistindo a um dos meus filmes pornôs. Ele não tinha dado por mim ainda e seguia curvo com a punheta. O rosto transformado. Falava um dialeto estranho enquanto punhetava-se. Segurei a risada. Não queria atrapalhar. Então o vi soltar um urro e em seguida ejacular a um raio de uns três metros mais ou menos – que era a distância exata que separava o sofá da televisão. O sêmen atingiu em cheio o aparelho, cobrindo-lhe toda a tela. Fiquei olhando para aquilo aterrorizado, sem acreditar. O sêmen era dourado e escorria grosso e pegajoso pela tela da TV. O piso da sala
recebia os pingos grossos que caiam em camaralenta, provocando um som oco e assustador. O homúnculo era sem dúvida o cara que mais ejaculava no mundo. Cogitei. Não me ocorrera de imediato o plano que eu viria desenvolver mais tarde. O que senti naquele momento foi pena do anão. Muita gala retida. Um tonel. Pensei em levá-lo a um stripper para ele aliviar a tensão.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O ANÃO DO AÇOUGUE - PARTE III



SEPARAÇÃO

Naquele mesmo dia havia estourado toda a grana e voltei bem tarde para casa. Bêbado, fedido; aos pedaços. Tomei um banho demorado, bati uma punheta pensando na Dagmar e me enfiei na cama, ao lado de Selminha que dormia como uma pedra. Tive sonhos pesados. Num deles sonhei que eu era um imenso barco e que naufragava em merda. Meus pulmões se enchiam de merda. Me afogava em merda. Selminha me deu umas cotoveladas e eu despertei daquela premonição onírica-escrota. Ela, ao contrário, havia sonhado com cobra. Acordou cedo toda pronta e cheirosa me dizendo que havia sonhado com cobra:

“Sonhei com cobra esta noite e cobra é traição.”

“Quê cê quer dizer?”

“Que para mim chega, Mário Augusto!” Depois ouvi seus passos pela cozinha. O seu perfume forte. O toktok frio e seco dos seus saltos altos. Minha cabeça latejava. Tentei ligar a televisão, mas o controle estava sem pilha. Olhei e vi sua mala pronta no canto do quarto. Senti o cheiro de comida. Selminha sempre deixava tudo pronto antes de sair para trabalhar. Até ali, tudo bem. Mas o que fazia aquela sua mala pronta no canto do quarto? Não costumava ficar sobre o guardarroupa?

“O que tá acontecendo? Ainda são seis da manhã! E essa mala pronta?”

“Estou deixando esta casa. Saindo da tua vida. Não quero mais isto para mim. Chega, Mário Augusto!”

“Caralho, vamos conversar!”

“Não tem mais conversa entre a gente. Saio hoje da tua vida. Agora e já!”
Sentei à beira da cama, atordoado. Não sabia o que pensar. A verdade é que já não nos entendíamos algum tempo, e por conta disso, Selminha vivia prometendo me deixar. Entrei em pânico. Se Selminha me deixasse, eu estaria fodido. Quem iria me sustentar? Estava desempregado.

 “Vamos conversar, amor.”

“Amor uma ova! Vou deixar a comida pronta e o dinheiro do açougue. Depois tu te vira!” E caminhou até à porta. Havia muita raiva e veneno naquele toktok dos saltos. Eles me mandavam à merda. Sequer olhou para trás. Estava mesmo decidida. Depois que ela fechou duramente a porta na minha cara – arrastando aquela sua mala - é que vim sentir na pele que ela falava mesmo à sério. Selminha partiu. Fiquei grogue uns dias, sem saber definitivamente o que fazer. Não tinha uma profissão àquela altura da vida. Acho que nunca tive. Sempre dando cabeçadas nos muros. Na verdade queria ser escritor, mas escritor não é uma profissão e não dava dinheiro, além do mais – como ela mesma costumava dizer – literatura não põe comida na mesa. (Minha velha também vivia me dizendo isso). Embora me empenhasse o bastante, no fundo elas tinham razão: os livretos que eu escrevia não ajudavam muito.
TODO ARTISTA OU ELE FICA SÓ OU ELE PROGRAMA A MULHER
(Ecumênicus me falou certo dia sobre isso e eu fiquei pensando onde exatamente eu encaixaria esta máxima na minha vida).

Passei a beber o dobro do que bebia. Olhava a escuridão da janela e chorava sempre quando ouvia aquela música do filme AEROPORTO 77. Um dia me enchi de ficar enchendo a cara, olhando a escuridão da janela, e ouvindo aquela música triste do AEROPORTO 77 e fui até o açougue comprar comida. Foi aí então que o anão entrou na minha vida e tudo mudou...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O ANÃO DO AÇOUGUE - PARTE II



 DAGMAR

Descemos as escadas daquele motel e paramos na porta. Olhamos a rua. Antes de se despedir, ela mordeu os lábios e me olhou com certa candura:
“Pode me arranjar mais dez, que é, pra, sabe, comprar o meu remédio? Estou sem remédio em casa, é por isso que tenho tido esses ataques.” Dei-lhe mais dez reais. Apertou meu queixo e tomou seu rumo. Vi aquele enorme bundão se afastando e aquela sensação escrota que tinha sido engabelado. Atravessei a ruazinha e entrei no Holandas. Pedi uma cerveja, é claro. Fiquei ali no balcão tomando minha cerveja. Alguém tocava em um órgão um bolero podre e rastejante.
“Porra! Sessenta paus! Me custou caro essa puta!” Pensei alto. Tomei uma golada. Naquele momento eu ainda não havia percebido uns carinhas que riam de mim no balcão. Balcão de bar é lugar de respeito. Me aproximei deles:

“Sei lá, mas tenho a impressão que estão rindo de mim.”

Os caras se olharam. Um deles disse:

“É que vimos o senhor saindo do Nacondas com a Dagmar.”

“Sim, e daí?”

”Daí que o senhor provavelmente foi mais um que caiu no golpe dela.”

"Que golpe?”

“O mesmo que a maioria sempre cai.” Disse o outro. Pensei no ataque epilético.

 “A dona é doente, porra!”

“Conversa! A gente conhece aquela puta. Doente coisa nenhuma. Vigária, isso sim.” Falou este outro. É, os caras tinham razão. Todo aquele papo de epilepsia. A dona havia me engabelado mesmo. Tão boa atriz aquela filha da puta era. E aqueles dois ali. Só mais tarde é que vim descobrir que os caras ficavam ali o dia inteiro, sentados no balcão do Holandas contando o número de otários que caiam na lábia da puta. Eu era mais um. A vida tem dessas coisas. Não, não! A vida não tem dessas coisas. Eu é que fui um otário mesmo. Fingi um, ah, foda-se! Sequei a garrafa e pedi outra.
Mas e o anão, afinal de contas? Calma, senhores, chegaremos nele já, já! Antes, devo lhes falar de minha separação.

       

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O ANÃO DO AÇOUGUE



                                                (...) o foda não é a subida. É a queda.

                                                                                    (Jesus)





PARTE I – BARGANHA

Ela estava tendo uma espécie de avecê ou algum ataque epilético, sei lá, e aquilo era feio demais. Fiquei ali na cama encolhido olhando horrorizado àquela cena deprimente sem saber exatamente o que fazer. Era uma situação nova para mim: aquele imenso corpo se tremendo todo. Os olhos arregalados fitando o teto espelhado. E ela era tão gostosa, aquela mulata. Um corpão maravilhoso. Um bundão do caralho e eu nem cheguei a meter nela. Que desperdício! O espetáculo de horrores durou quase meia hora. Quando ela parou de tremer e ficou ali inerte na cama com a cara torta – lembrando aquele clássico do Exorcista – achei que tivesse apagado de vez. Toquei levemente com o pé na altura do seu ombro esquerdo. Nada. Mas não estava morta, não, pois que lhe senti o corpo ainda quente e um leve respirar de passarinho. Levantei-me e fui ao banheiro urinar. Urinei mais tranquilo. Até aproveitei pra fumar um cigarro. Quando voltei, ela estava lá sentada à beira da cama; os cabelos desgrenhados parecendo uma bruxa nocauteada. Os peitões firmes pulados pra fora porque ela havia se livrado apenas da blusa quando sofreu o ataque.
“Desculpa, foi mal. É que estou sem tomar meus remédios.” Ela me disse passando a costa da mão no nariz ajeitando seus cabelos para trás. Passou a travessa e já estava de pé pronta para a guerra. Era imensa e gostosa metida naquele jeans apertadíssimo que lhe deixava com um enorme bundão. Passei a tarde inteira desejando aquele bundão atrás daquele jeans colado na pele. Tinha grana para comer aquele bundão. O dinheiro do meu inseguro desemprego. Fiquei pensando no que dizer. Ofereci-lhe um cigarro e ela aceitou.
“Você me desculpa, mas preciso ir.”
            
           “Mas nem transamos!”

“Não tem mais clima.”

“Bate uma pra mim? Pra não perder a viagem, sabe como é.”

“Punheta é vinte!”

“Porra, vinte é muito por uma punhetinha. Fecha em quinze?”
            
            Ela me olhou com um olhar azedo e disse:

“Quinze, mas tem que ser rápido.” Fiquei de joelhos sobre a cama como um adolescente afoito e desci apressado o zíper da calça. O pau pulou pra fora feito um demônio enlouquecido.

“Só mais uma coisinha, pode ser?”

“Diz aí!”

“Dá pra você, bom, ficar assim de quatro e arriar só um pouquinho seu jeans pra ver sua calcinha enquanto você bate uma?” Ela estendeu sua mão direita dizendo imperativamente:
 “Mais dez?”

“Oquei!” Ficou com a mão estendida. Apanhei a carteira e dei os dez.
         
          “Por que não me dá logo os vinte e cinco?” Dei-lhe os vinte e cinco. Ela arriou uma parte do jeans até os joelhos e eu vi sua calcinha vermelha aparecer. O tecido vermelho sobre a pele negra. Uma loucura. Pôs-se de quatro e a sua enorme bunda projetou-se no teto espelhado daquele motel vagabundo. Uma visão esplendorosa a daquela mulata acaboclada. Coxas poderosíssimas, bunda prepotente. A mão direita dela enlaçou meu pau e foi pressionando com frieza para cima e para baixo. Ela me olhou nos olhos com submissão. Aquilo me deu mais tesão. Olhei para sua boca enorme e carnuda. Pensei em muitas sujeiras. Enfiar meu pau naquela boca. Em espancar aquele enorme bundão. Depois montar nela. Enfim, mostrar quem mandava ali. Enquanto ela acelerava a punheta, fiquei pensando quanto de dinheiro ainda tinha na carteira. Peguei a carteira com a direita, enfiei a mão trêmula lá dentro e alcancei uma nota de dez. Mostrei pra ela:

“Um boquete, vai?”

“Boquete é trinta, bebê!”
          
        “Porra, trinta? Assim tu me quebra. Paguei horrores de cervejas no Holandas, lembra não?”
 “Vinte e cinco e não se fala mais!”

“Vinte e cinco, fechado!” Peguei a grana.

“Não demora pra gozar, não, caralho!” Pegou os vinte e cinco e foi abocanhando meu pau latejante. Caralho, senti um prazer imenso. Não havia amor, não havia ternura. Melhor assim. Apenas aquela língua trabalhando o meu pau. Apertava-lhe com a boca. E que boca! Uma boca milagrosa. Meu pau cada vez mais duro, feito uma estaca apontada pro céu. Oh, glória! Devia ser umas seis da tarde daquele dia. Os sinos da Igreja Matriz. A Ave Maria de Gonoud. Vai cadela! Chupa! Olhou-me furiosa. Calei-me. Prosseguiu chupando. Sua língua deu uma volta na base circular do meu pau e depois foi escalando lentamente até à cabeça dele. Brincou um pouco nela com a ponta da língua. Uma profissional, era. Tava me deixando louco. Dei o primeiro solavanco.

“Não vai gozar na boca, porra!” Tentei segurar o segundo, mas ele veio. Potente. Empurrei a tempo o rosto dela para não atingir-lhe em cheio sua cara. Pingou um pouco de sêmen na testa.

 “Quase me acertou, seu puto!” Fiquei na mesma posição, ofegando. Mãos na cintura. As pernas tremiam. Ouvi pela primeira vez o ruído do ar condicionado velho. Era deprimente. Tudo fica deprimente depois que você goza. Pensei em Selminha. Em todas as pessoas do mundo. Depois de uns anos de casado, você faz um esforço tremendo pra foder a esposa e ejacular logo. Pede pro seu pau gozar rápido. Pensa na sua vizinha ou na garota da parada de ônibus que é pra ajudar. Não há mais tesão. As relações secam. Tudo seca. Após o coito, você beija falsamente a testa de sua esposa, companheira, namorada, sei lá o quê, e depois vira sua bunda pra ela. E a vida segue...

domingo, 22 de setembro de 2013

O ANÃO DO AÇOUGUE

O ANÃO DO AÇOUGUE

         A globalização industrial , apelidada de modelo Zona Franca, transferiu uma tragédia social da área rural para a cidade. O realismo também se transferiu. Não mais como expressão do trágico, mas agora como expressão do absurdo social e do absurdo como expressão artística. A estrutura social gerando sua estrutura textual. No rastro das literaturas épicas, líricas e trágicas, emerge a literatura cômica.
     Com a industrialização, Manaus passou a ser uma cidade absurda. Um dos maiores Produtos Internos Brutos e um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano. Um parque industrial High Tech, cercado por 16 comunidades indígenas e centenas de favela. O maior rio de água doce do mundo e a cidade com um dos piores abastecimentos de água potável. A cidade com maior número de igarapés e todos, tirando o Água Branca, no Tarumã, todos poluídos. Igarapés à disposição e um trânsito insuportável. Manaus é sim uma cidade absurda. Aliás, é a expressão do absurdo. Daí que qualquer outra percepção estética que não seja a perplexidade do absurdo será absurda, absurdamente deslocada ou desfocada.
      No rastro literário desta tradição, surge uma literatura do realismo cômico - fantastico e absurdo. Surge do submundo do cotidiano dos trabalhadores e do lupen(z)sinato urbano. Márcio Santana é um dos escritores que emerge neste contexto social e estético.
     O Anão do Açougue, O Homem Com a Abertura na Testa e O Desintupidor de Fossas são três de seus fanzines que li junto com ele, no reduto dos transgressores, em Manaus.
    São contos e expressões da literatura urbana - cômico - realista - fantástica - absurda do Amazonas.
   O Anão do Açougue é exemplar. Um trabalhador vivendo uma desdita amorosa conhece um anão e passa a ter com ele , inicialmente, uma grande relação de amizade, digamos assim. Depois, devido a potente ejaculação do anão quando se masturbava , e devido, também, o interesse comercial de um dono de putero nesta qualidade do anão, o trabalhador-narrador, " fodido e explorado" , como ele mesmo se define, passa a ver o anão com outros olhos. Uma situação ao mesmo tempo realista, cômica,absurda, mas que, pela aparente irrealidade, torna-se , também, fantástica. Real e irreal coexistindo para gerar uma nova realidade.
   Mas engana-se quem não acredita na verossimilhança da trama.
O trabalhador-narrador-observador narrando em terceira pessoa, não tira o cu da seringa: Ele é parte da trama , ele também requenta o submundo, como personagem secundária , é verdade, porém decisiva para que o enredo se estabeleça.
E o trabalhador-narrador é sofisticado. Ele para a narrativa e dialoga com o leitor, questiona sua descrença no fato e o ironiza: " Você não acredita não é, leitor? Mas eu estava lá e presenciei tudo".
   Dou gargalhadas com este conto. E não é fácil fazer o leitor rir.
Márcio Santana, porém, é muito melhor que seu crítico, que seu professor e melhor ainda que esta breve e sentimental apreciação crítica da obra. Nele, forma, conteúdo e vida estão conectados, encaixados. Ele é a própria obra.

Ribamar Mitoso (Escritor, dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas. Mestere MSC em Literatura Amazônica.) 

domingo, 4 de agosto de 2013

A ENTREVISTA

A ENTREVISTA
             (em memória de Anne Rocha)

  


Eu havia vendido alguns dos meus livretos naquela noite e parei no Bar do Lusitano para tomar umas cervejas porque ninguém é de ferro. Foi lá que conheci Anne Rocha, uma cantora de bolero da noite. Ela bebia sozinha no balcão bem ao meu lado. Olhava curiosa para mim e para a pilha de livros dispostos no balcão de vidro. Curiosa, quis saber seu eu é que tinha escrito aqueles livros e eu respondi que sim, que eu era escritor. Pediu gentilmente para olhar e eu a deixei folheando um deles enquanto fui ao banheiro. Quando voltei, ela me recebeu com um sorriso doce de bêbada e perguntou:
“Quanto é que custa um?” Disse-lhe que era R$10,00, então ela disse: “Não posso levar hoje porque estou dura, mas você pode divulgar esse seu livro na Rádio Porto Fluvial. Fala com o Saraiva, amigo meu que é locutor, diz pra ele que você é escritor e que é amigo da Anne Rocha.” Então eu disse:
“Poxa, que legal! É tudo de que mais preciso, ainda mais numa rádio. Quando posso ir?”
“Amanhã, as dez! Eu vou estar lá.”
“Então eu vou.” E ficamos conversando um pouco mais, até ela anunciar que já ia embora porque estava ficando pesada demais, então eu resolvi ofertar-lhe um livro de graça e prometi que pela manhã, as dez, eu estaria lá na tal Rádio. Aí ela se foi cambaleante e sensual como um bolero doce e eu fiquei lá, naquele balcão de vidro seboso.
É claro que não pude ir pela manhã porque bebi demais e acordei com uma puta ressaca, de modo que arrisquei ir á tarde. Aí o telefone tocou. Atendi. Era Jordana:
“Mário, preciso te mostrar umas coisas novas que escrevi.”
 “As cinco, no Bar Castelinho, ok?”
“Combinado.” E desligou.
As três em ponto, eu já estava lá atravessando saltitante a rampa do Porto Hidroviário atrás da tal rádio. A tarde declinava em calor, tédio e ressaca. Eu ainda ouvia vozes dos bares e tilintares dos copos chacoalhando dentro da minha cabeça. Alguém me informou que o estúdio ficava na parte superior e eu subi as escadas que me levariam finalmente ao estúdio. Como era uma sexta feira, o movimento era bastante intenso na Praça de Alimentação do Porto. “Se essa gente toda me ouvir vai ser muito legal.” Pensei alegremente enquanto passeava todo orgulhoso os meus olhos ao redor da praça. Chegando ao estúdio, dei logo de cara com o Saraiva, o locutor. Um cara com uma cara de Amado Batista: um rosto redondo e chato. Ele me lançou um meio sorriso amigável e pediu para que eu entrasse e sentasse enquanto anunciava a chegada de um barco que vinha de um interior desses qualquer. Quando pôde me dar um pouco de atenção, eu disse:
“Sou um amigo da cantora Anne Rocha. Ela canta na noite e divinamente bem, diga-se de passagem. (Eu na verdade menti. Nunca a vi cantar até ali, mas clichezamente falando, nessa vida é preciso saber rolar os dados). Ela falou da rádio e do espaço que eu poderia ter para eu divulgar o meu livro. Sou um escritor.” Mostrei o livro pra ele. Ele pegou o livro, olhou a capa, virou as páginas e deteve-se numa das linhas, foi aí que percebi que seu semblante foi ficando pesado demais á medida que ele aprofundava-se na leitura. Vi logo que o livro pareceu-lhe não agradar muito, dado a sua grave estética facial que se avolumava ganhando uma tonalidade vermelha. Depois de um tempo, ele disse:
“Mas isso aqui, meu camarada, é um livro pornográfico!” Aquilo me pegou de surpresa. Me ajeitei na cadeira e equilibrando melhor o riso, perguntei:
“Livro pornográfico? Como assim, seu Saraiva?”
“Meu amigo, você fala aqui de vagina, pênis, ânus e sei lá mais o quê e vem me dizer que não é pornográfico? Eu não vou divulgar isso aqui na minha rádio, não, cidadão.” Fiquei pensando no que dizer.
“Mas Saraiva, são apenas símbolos, metáforas. Trata-se de um recurso estilístico muito usado pelos realistas mágicos.” Tentei inutilmente convencê-lo.
“Mas olha isso aqui: (…) o pênis apontava em direção das estrelas, pois que gostava tanto da física quanto das palavras...” E olhando sério para mim, disse: “O cara segurando um pênis, cidadão!” Aquilo, é claro, começava a ficar estranhamente engraçado.
 “Não há ninguém segurando um pênis, Saraiva, (já estava ficando intimo do cara) o pênis tem articulação própria, assim como a vagina e também o ânus. Eles são membros desprendidos do corpo, e, portanto, tem vida própria. Na verdade, estão em busca de uma identidade, de uma afirmação, pois que não dependem mais do conjunto humano. É disso que eu trato no livro: do desmembramento no sentido antropomórfico da vida.”
“Meu amigo, isso aqui é uma rádio de respeito, lá embaixo, veja bem, tem gente de família, crianças, senhoras e eles certamente não vão gostar nada do que vão ouvir. Isso é literatura pornográfica!”
“Não, não é não, Saraiva, está sendo taxativo. Isso é literatura universal.”
“Se ainda trata-se das coisas da terra como os outros artistas que por aqui estiveram, mas convenhamos, falar de vaginas e outros orifícios, isso aqui não rola na minha rádio, não!”
“Mas Saraiva, já tem gente demais escrevendo sobre as coisas da terra. Eu escrevo sobre outras coisas.”
“Veja, meu rapaz, foi uma luta pra não tocar mais estes forrós de baixo calão e moralizar esta rádio, e aí vem você com esse seu livro.”
 Tudo parecia se encerrar ali, quando de repente entrou um cara alto e bem vestido e interrompeu a conversa. Trazia consigo um cd da Marisa Monte e pediu para que o Saraiva tocasse. Ele ouviu um pouco da conversa e com polidez quis saber do que se tratava, tendo em vista a irritação estampada na cara do sósia do Amado Batista.
“Este rapaz aqui quer divulgar um livro que ele escreveu, mas não tem condição, doutor.” DOUTOR? Olhei de relance pro cara e notei que ele usava um crachá da polícia Federal. Agora ferrou de vez. Certamente ele ia pensar o mesmo. O mundo estava perdido. A minha literatura estava perdida. Pensei exageradamente em tudo isso. Parecia que eu estava vivendo os anos de chumbo outra vez. Um lance meio surreal mesmo.
“Posso olhar?” Perguntou o agente.
“Sim, claro.”
 “O conteúdo é pornográfico.” Advertiu novamente, o Saraiva.
“Do que se trata o teu livro mesmo?”
“Bom, -- aí me posicionei como um pugilista amador pronto para seu segundo round e disse, -  é sobre um órgão sexual feminino que surge na testa de um cidadão aspirante a escritor, sendo que esse órgão fala, tem vontade própria, personalidade, e acaba transformando a vida pacata desse cidadão num completo absurdo, mas é claro que a novela não se trata apenas disso, mas também das relações humanas, da busca pela afirmação, do amor, de um cotidiano brutal a que todos nós incondicionalmente estamos inseridos.”
“E o que há de errado nisso, Saraiva? Eu também tenho uma vagina na testa, você não?” Respirei com alívio me recostando na cadeira. Havia ganho um aliado. “Deixa que o leitor faça a sua própria interpretação. Nelson Rodrigues – e aí ele se estendeu um pouco mais – foi um escritor muito censurado em sua época porque achavam que o que ele escrevia eram textos pornográficos, no entanto, o que ele falava era tão somente da hipocrisia de uma sociedade. E ele está aí. Depois de morto, é o cara mais lido na atualidade, e eu particularmente adoro ler Nelson Rodrigues.” E virando-se para mim, perguntou:
“Você já leu o Anjo Pornográfico?”
“A biografia? Sim, já li.” (E eu de fato lera. Também gosto de Nelson Rodrigues.) “Viu, Saraiva? Vê-se logo que o rapaz aqui tem leitura. Deixa o cara vender o seu peixe. Quanto custa o teu livro, camarada?”
“Dez, doutor.” Sacou sua carteira com a insígnia da policia federal e retirou lá de dentro a quantia certa.
“Assina aí: Tenente Álvaro.” Autografei o livro com uma satisfação e com uma alegria que não cabia dentro de mim. Fiquei imaginando a reação Indignada daquele locutor com cara de Amado Batista.
“Prontinho!” Entreguei o exemplar a ele.
“Vou ler ainda hoje. E não esquenta não, ele vai divulgar o teu livro, não é Saraiva?”
 E aquele policial bom e sensato despediu-se dando uns tapinhas nas minhas costas. Saraiva virou-se para mim com uma cara de poucos amigos e disse:
“Escuta, Mário, eu vou divulgar o teu livro sem mencionar esses detalhes profanos aqui escritos, embora eu confesse a você que não sou um apreciador deste tipo de literatura.” E pegou o microfone e divulgou o livro. Foi estranho e engraçado ouvir o meu nome e o nome do livro sendo anunciado no alto falante daquela rádio que tinha alcance nos arredores do porto e ao longo da catedral da Igreja Matriz, chegando até as barraquinhas de feiras ali próximas. Não rolou entrevista alguma, é claro, tampouco apareceu alguém no estúdio para ver o livro ou conhecer o seu autor. Mas que importância tem isso? Pensei. Deixei o lugar com a certeza de mais uma vitória e subi feliz e confiante como um gigante pequeno a Avenida Eduardo Ribeiro em direção ao Bar Castelinho para comemorar com a poetinha Jordana que a esta altura, certamente já me aguardava com seu vestido longo e ofuscante da cor do sol...


domingo, 23 de junho de 2013

A RUIVA - FINAL



A VIDA É UM ISQUEIRO ACESSO

Não me sentia culpado. A culpa é um sentimento tão pessoal e líquido que logo se desfaz. Uma forma primitiva de se auto-condenar.  Um troço quadrilátero. Medieval. Um balão furado! Eu tinha podido comprar umas cervejas e prossegui pensando. O sistema humano quer sempre investigar a procedência da culpa. Sua raiz. Por que sentimos culpa? Acho que no fundo, a culpa é para quem possui alguma espécie de caráter ou vaidade. Como não possuo as duas coisas, então não posso ser penalizado, a não ser por mim mesmo. Sigo minha rota naval.  Minha estranha engenharia humana. Dispenso minha culpa e fico aqui com as minhas falhas e rachaduras do caráter. Eu analisava bestialmente essas questões tolas e infundadas, na amurada daquele barco, quando um sujeito me abordou:
“Poucos dão importância a um isqueiro porque não reconhecem o valor de sua chama. Hein? ” Me disse aquele sujeito com sotaque castelhano. O chapa usava um chapéu de côco na cabeça que lhe cobriam os cabelos ligeiramente grisalhos. Tinha um olhar e jeito expressivo de quem possuía certo conhecimento de alguma coisa. Apresentou-se. O nome era Pablo. Um jovem-homem-velho. Apertamos nossas mãos frias do vento daquele começo de noite.
“Desculpa, mas é que não entendi direito.” Ele riu e disse:
“Sou colecionador de Isqueiros. Hein?” Aí então ele sacou um isqueiro de formato estranho do seu bolso e o acendeu. “Este aqui folheado a prata com a base côncava, é um Dumont Suiço, 1946. Olhe a sua chama. Mesmo com o vento forte, jamais se apaga. Hein?” Fiquei olhando para o isqueiro e para o chapa. Mais essa, agora. Pensei. Ele ria enquanto mantinha a chama acessa daquele isqueiro.
“É... bem interessante, Pablo.”
“Interessante? Sua chama nem oscila.” Pensei em dizer-lhe: “Mas o que eu tenho haver com isto?” Foi quando ele apagou o isqueiro e perguntou:
“Está indo para onde?”
“Manaus. E você?”
“Eu apenas vou. Quer dar uma olhadinha na minha coleção de isqueiros?”
“Cara...”
“Vamos ali, eu te mostro. Estão no meu camarote.”
O chapa viajava num camarote maneiro, maior conforto. Ele abriu uma maletinha e me mostrou seus isqueiros. Um montão deles. Falava como uma criança emocionada mostrando seus brinquedinhos.
“Veja este aqui, é um autêntico zippo, 1962. Che Guevara fumou nele. Não é lindo? Hein? A chama também é dura. Resistente. Toque nele... hein? Acho que é esta estrutura metálica que reveste a chama. Já este Jim Beam aqui, é de New Orleans, 1932. No caso deste, a chama oscila, mas demora a apagar. Os negros trompetistas adoravam estes isqueiros. Dizem que Dizzy Gillespie usava um destes. Curte Jazz? Hein? Vou te mostrar este aqui. Olhe que beleza, é um Sumitono, isqueiro japonês da segunda guerra mundial. O preferido dos Kamikazes antes deles se arrebentarem com seus aviõeszinhos no chão. Hein? Ele é todo em prata maçisa. Olhe que beleza. Pode tocar. Não há mais chama nele. Dizem que era azul. Uma chama azul.”
“É bem legal mesmo, Pablo. Mas estou com fome agora.” Disse a ele.
“Ah, sim, vamos jantar, vamos jantar.”
O Santa Helena seguia veloz e valente enquanto eu fazia meu prato. Eles serviam uma suculenta comida. Me servi de grandes pedaços de frango cozido, arroz, toucinhos, feijão. Pablo não ficou atrás. Tinha um apetite bastante feroz. Sorria sentado ao meu lado. Aí ele me mostrou um outro isqueiro. Falava como se conspirasse o tempo todo:
“Já viu um destes?”
“Não, nunca vi.”
“Cara, é um genuíno Ronson inglês, 1970. Uma peça rara, hein? Hein? Ele é todo prateado com suas bordas laterais de ouro. Hein? E ele acende, veja sua chama!” Acendeu. “Comprei em Buenos Aires em 84, junto com um porta-isqueiro de opalina leitosa, tampa basculhante com pegador em pinha de bronze. Me desfiz do porta-isqueiro porque precisava de grana, mas do isqueiro não me desfaço nunca. Os isqueiros nos contam uma história.”
“E o que você faz da vida além de colecionar isqueiros, Pablo?” Perguntei aquilo enquanto mordia aquele pedaço de frango bom.
“Nada. Só coleciono isqueiros e viajo pelo mundo. Hein?”
“Tá...” Ele se chegou mais próximo de mim e sussurrou:
“Olha, preste bem atenção neste aqui!”
“O que tem ele?”
“Bom, ele tem essas abas laterais estilo napoleônico, de madeira, tampo prateado... o preferido de Cristian Andersen. Dizem que ele fumou muito neste isqueiro enquanto escrevia o Soldadinho de Chumbo. Andersen fumava sem parar. Fumava como ninguém... Uma chaminé humana. Hein?”
“O cara das fábulas?”
“Hein?”
“Cara...”
“E você, o que você coleciona na vida?”
Pensei enquanto mordia aquele último pedaço de frango.
“Eu... bom, Pablo, eu não coleciono nada, cara.”
“Hein?”
“Eu tentei colecionar vidros de perfume franceses, mas não deu muito certo, não.”
“Nem rótulos de vinho? Conheci um cara em Córdoba que colecionava rótulos de vinhos. Ele andava sem sentido na vida, querendo se matar, então eu disse a ele que ele precisava se dedicar a colecionar alguma coisa. Hoje ele coleciona rótulos de vinhos... Hein?”
“Acho que coleciono desgraças, Pablo.”
Ele sorriu assustado, meio incrédulo, voltando a mastigar. Mastigava conservando a boca fechada. Os cantos dos seus lábios subiam e desciam maquinalmente como uma engrenagem estranha. Ficou sério enquanto mastigava. O sujeito era um tipo.
Saímos dali e fomos para seu camarote. Ele excitado me mostrou mais isqueiros de sua coleção. O sentido da vida para aquele homem era mesmo colecionar isqueiros. A patologia humana é bem interessante. Digna de investigação. Mas eu estava sem saco. Pedi licença e sai um instante e fui para a sacada do barco. De alguma maneira eu queria estar só. Olhando as luzes dos vilarejos acesos de Macondo. Vagalumes! Milhares deles acessos. E o quanto mais pudessem existir no mundo. Olhava para aqueles pontos luminosos. Tudo é um ponto indecifrável piscando dentro da gente. Eu fazia o meu caminho de volta. Solitário. Sem planos. O frio me estalando os ossos. Nem um cheiro de xota por perto para me roubar a paz. Nada. Eu, eu mesmo, aquele rio escuro... e o cara dos isqueiros me ensinando o valor de uma chama acessa. Começou a relampear. Vi se aproximar uma tempestade:
“Hein? Acho que não lhe mostrei este ainda.” Disse o chapa se aproximando outra vez. “É um antigo e popular isqueiro francês em forma de uma moeda de cinco francos. Pertenceu á Napoleão.”
“O Bonaparte?”
“Este mesmo. Hein? Hein?
“Você está dizendo, Pablo...”
Ele ainda acende, e sua chama é forte e azul. Não é incrível?”
“Bom...”
“Ele tem um formato redondo e seu revestimento é todo de chumbo. Repare só a gravura estampada nele... é de um brasão de guerra que salta os olhos. O seu pavio é de algodão embebido de querosene ou tirebintina que possui uma essência inflamável feita toda de casca de laranja... não é incrível? Hein?” Ai Pablo ficou estranhamente triste enquanto me dizia: “O homenzinho fumou neste aqui na véspera de sua derrota em Waterloo. Foi sua última batalha, e havia aquela tempestade que desabou de repente... Ele poderia ter recuado sabiamente, mas preferiu esperar o momento certo e avançar... Ora, o homenzinho não era de perder nenhuma batalha. Mas ele estava nervoso. Fumava um cigarro atrás do outro. Acendeu-os neste isqueiro aqui! Olhe bem pra ele, hein? Seus setenta e dois mil homens já haviam sofrido baixa contra o exército inglês, e ele andava preocupado. Fumando um cigarro atrás do outro. Mas o homenzinho era teimoso. Esperou que a tempestade passa-se e que a terra enfim secasse, já que a chuva havia transformado o campo de batalha num lamaçal, e aí então ele ordenou o avanço de sua tropa. Mas antes, ele escreveu em seu diário a seguinte frase: “O erro, é um destino que se cumpre com heroísmo.” Foi o que ele escreveu ali sentado, sozinho. Ele parecia advinhar. Advinhamos quando o fim está próximo. Sabe-se lá o que se passava na cabeça do homenzinho. Mas de uma coisa fique certo, o sujeito não era um cara que se entregava à-toa. Mesmo acuado, era capaz de ver o sol brilhar atrás da névoa. Ele sabia, portanto, que não havia reinado no céu. Somente na terra é que imperamos; que escrevemos nossa história. E ele então investiu contra o inimigo com sua famosa Guarda Imperial - a elite de seus veteranos. Mesmo em inferioridade numérica, o homenzinho teria de atacar. E o resto todos nós sabemos. Está lá nas páginas de Guerra e Paz... Numa guerra, meu chapa, é preciso sempre manter a chama de um isqueiro acessa. Fique com este! É seu. Hein?” Disse Pablo. “Vou pegar umas cervejas, pra gente.” E o chapa então se foi e não voltou mais. Fui sentindo gradualmente sua ausência. Não vou dizer que não cismei em procurá-lo. Pois fui. Fui até lá embaixo. Subi outra vez. Bati no seu camarote. Não havia nada do outro lado. Sequer um ruído. Eu nunca mais o veria. Vida louca. Eu devia ter dado mais atenção aquele chapa. Agradecer pelo isqueiro, sei lá. Um vento soprou com mais força e eu senti uns respingos gelados na nuca. Começou a cair um pau d´água, acompanhado de fortes relâmpagos. As lonas foram baixadas. Fez-se um silencio estranho no barco. Se ele afundasse de repente, ninguém ia sentir dor. Será? Caminhei desesperado até o bar. Sem álcool e sem buceta ninguém vive.
 “Tô fechando, amigo!” Falou uma bicha velha que tomava conta do bar.
“Pelo amor de Deus, chefe, me vende só uma garrafa daquelas ali no canto pra suportar o frio.” Apontei para uma garrafa de vodika vagabunda.
“Oito!” Eu só tinha cinco. O barco balançava. Um frio desgraçado. Tentei negociar com a bicha velha:
“Esse barco vai afundar, cara, e eu preciso de um trago disso aí.” Ele me esconjurou. Deixou por cinco. Era tudo que me restava, aqueles cinco reais. Quando chegasse à Manaus, eu daria um jeito. Se chegasse. Sério. O barco balançava com o forte temporal. Um raio iluminou o rosto duro e escroto da bicha velha. Seus olhos estavam pulados, bastante assustados. Eu vi o medo dentro daqueles seus olhos saltados. Ele tratou de fechar o bar. Peguei a garrafa, e há muito custo, me dirigi mais uma vez para o camarote do sujeitinho. Bati outra vez, mas necas. Nenhum sinal do gringo. “Onde ele se meteu, esse filho da puta!” Eu balançava pra lá e pra cá com a garrafa no corredor. Desci ligeiramente as escadas e fui pra minha rede. Deitado, tomei uma grande golada daquilo. Senti relaxar por dentro. Já se ouvia o desespero das pessoas; suas almas agitadas apanhando seus salva-vidas. Choros de crianças, mulheres, marmanjos. Fui capaz de rir. Ri bastante alto em meio à claridade sinistra dos relâmpagos e o desespero dos tripulantes. Tolice. Quando a morte chegasse, ninguém escaparia. Ninguém é digno de escapar. Acendi o isqueiro que Pablo me dera. Fiquei olhando sua chama. A morte nos torna iguais. Pequenos anões. Fechei meus olhos...
                                                   
                                                                           Manaus, 21 de junho de 2013