domingo, 4 de agosto de 2013

A ENTREVISTA

A ENTREVISTA
             (em memória de Anne Rocha)

  


Eu havia vendido alguns dos meus livretos naquela noite e parei no Bar do Lusitano para tomar umas cervejas porque ninguém é de ferro. Foi lá que conheci Anne Rocha, uma cantora de bolero da noite. Ela bebia sozinha no balcão bem ao meu lado. Olhava curiosa para mim e para a pilha de livros dispostos no balcão de vidro. Curiosa, quis saber seu eu é que tinha escrito aqueles livros e eu respondi que sim, que eu era escritor. Pediu gentilmente para olhar e eu a deixei folheando um deles enquanto fui ao banheiro. Quando voltei, ela me recebeu com um sorriso doce de bêbada e perguntou:
“Quanto é que custa um?” Disse-lhe que era R$10,00, então ela disse: “Não posso levar hoje porque estou dura, mas você pode divulgar esse seu livro na Rádio Porto Fluvial. Fala com o Saraiva, amigo meu que é locutor, diz pra ele que você é escritor e que é amigo da Anne Rocha.” Então eu disse:
“Poxa, que legal! É tudo de que mais preciso, ainda mais numa rádio. Quando posso ir?”
“Amanhã, as dez! Eu vou estar lá.”
“Então eu vou.” E ficamos conversando um pouco mais, até ela anunciar que já ia embora porque estava ficando pesada demais, então eu resolvi ofertar-lhe um livro de graça e prometi que pela manhã, as dez, eu estaria lá na tal Rádio. Aí ela se foi cambaleante e sensual como um bolero doce e eu fiquei lá, naquele balcão de vidro seboso.
É claro que não pude ir pela manhã porque bebi demais e acordei com uma puta ressaca, de modo que arrisquei ir á tarde. Aí o telefone tocou. Atendi. Era Jordana:
“Mário, preciso te mostrar umas coisas novas que escrevi.”
 “As cinco, no Bar Castelinho, ok?”
“Combinado.” E desligou.
As três em ponto, eu já estava lá atravessando saltitante a rampa do Porto Hidroviário atrás da tal rádio. A tarde declinava em calor, tédio e ressaca. Eu ainda ouvia vozes dos bares e tilintares dos copos chacoalhando dentro da minha cabeça. Alguém me informou que o estúdio ficava na parte superior e eu subi as escadas que me levariam finalmente ao estúdio. Como era uma sexta feira, o movimento era bastante intenso na Praça de Alimentação do Porto. “Se essa gente toda me ouvir vai ser muito legal.” Pensei alegremente enquanto passeava todo orgulhoso os meus olhos ao redor da praça. Chegando ao estúdio, dei logo de cara com o Saraiva, o locutor. Um cara com uma cara de Amado Batista: um rosto redondo e chato. Ele me lançou um meio sorriso amigável e pediu para que eu entrasse e sentasse enquanto anunciava a chegada de um barco que vinha de um interior desses qualquer. Quando pôde me dar um pouco de atenção, eu disse:
“Sou um amigo da cantora Anne Rocha. Ela canta na noite e divinamente bem, diga-se de passagem. (Eu na verdade menti. Nunca a vi cantar até ali, mas clichezamente falando, nessa vida é preciso saber rolar os dados). Ela falou da rádio e do espaço que eu poderia ter para eu divulgar o meu livro. Sou um escritor.” Mostrei o livro pra ele. Ele pegou o livro, olhou a capa, virou as páginas e deteve-se numa das linhas, foi aí que percebi que seu semblante foi ficando pesado demais á medida que ele aprofundava-se na leitura. Vi logo que o livro pareceu-lhe não agradar muito, dado a sua grave estética facial que se avolumava ganhando uma tonalidade vermelha. Depois de um tempo, ele disse:
“Mas isso aqui, meu camarada, é um livro pornográfico!” Aquilo me pegou de surpresa. Me ajeitei na cadeira e equilibrando melhor o riso, perguntei:
“Livro pornográfico? Como assim, seu Saraiva?”
“Meu amigo, você fala aqui de vagina, pênis, ânus e sei lá mais o quê e vem me dizer que não é pornográfico? Eu não vou divulgar isso aqui na minha rádio, não, cidadão.” Fiquei pensando no que dizer.
“Mas Saraiva, são apenas símbolos, metáforas. Trata-se de um recurso estilístico muito usado pelos realistas mágicos.” Tentei inutilmente convencê-lo.
“Mas olha isso aqui: (…) o pênis apontava em direção das estrelas, pois que gostava tanto da física quanto das palavras...” E olhando sério para mim, disse: “O cara segurando um pênis, cidadão!” Aquilo, é claro, começava a ficar estranhamente engraçado.
 “Não há ninguém segurando um pênis, Saraiva, (já estava ficando intimo do cara) o pênis tem articulação própria, assim como a vagina e também o ânus. Eles são membros desprendidos do corpo, e, portanto, tem vida própria. Na verdade, estão em busca de uma identidade, de uma afirmação, pois que não dependem mais do conjunto humano. É disso que eu trato no livro: do desmembramento no sentido antropomórfico da vida.”
“Meu amigo, isso aqui é uma rádio de respeito, lá embaixo, veja bem, tem gente de família, crianças, senhoras e eles certamente não vão gostar nada do que vão ouvir. Isso é literatura pornográfica!”
“Não, não é não, Saraiva, está sendo taxativo. Isso é literatura universal.”
“Se ainda trata-se das coisas da terra como os outros artistas que por aqui estiveram, mas convenhamos, falar de vaginas e outros orifícios, isso aqui não rola na minha rádio, não!”
“Mas Saraiva, já tem gente demais escrevendo sobre as coisas da terra. Eu escrevo sobre outras coisas.”
“Veja, meu rapaz, foi uma luta pra não tocar mais estes forrós de baixo calão e moralizar esta rádio, e aí vem você com esse seu livro.”
 Tudo parecia se encerrar ali, quando de repente entrou um cara alto e bem vestido e interrompeu a conversa. Trazia consigo um cd da Marisa Monte e pediu para que o Saraiva tocasse. Ele ouviu um pouco da conversa e com polidez quis saber do que se tratava, tendo em vista a irritação estampada na cara do sósia do Amado Batista.
“Este rapaz aqui quer divulgar um livro que ele escreveu, mas não tem condição, doutor.” DOUTOR? Olhei de relance pro cara e notei que ele usava um crachá da polícia Federal. Agora ferrou de vez. Certamente ele ia pensar o mesmo. O mundo estava perdido. A minha literatura estava perdida. Pensei exageradamente em tudo isso. Parecia que eu estava vivendo os anos de chumbo outra vez. Um lance meio surreal mesmo.
“Posso olhar?” Perguntou o agente.
“Sim, claro.”
 “O conteúdo é pornográfico.” Advertiu novamente, o Saraiva.
“Do que se trata o teu livro mesmo?”
“Bom, -- aí me posicionei como um pugilista amador pronto para seu segundo round e disse, -  é sobre um órgão sexual feminino que surge na testa de um cidadão aspirante a escritor, sendo que esse órgão fala, tem vontade própria, personalidade, e acaba transformando a vida pacata desse cidadão num completo absurdo, mas é claro que a novela não se trata apenas disso, mas também das relações humanas, da busca pela afirmação, do amor, de um cotidiano brutal a que todos nós incondicionalmente estamos inseridos.”
“E o que há de errado nisso, Saraiva? Eu também tenho uma vagina na testa, você não?” Respirei com alívio me recostando na cadeira. Havia ganho um aliado. “Deixa que o leitor faça a sua própria interpretação. Nelson Rodrigues – e aí ele se estendeu um pouco mais – foi um escritor muito censurado em sua época porque achavam que o que ele escrevia eram textos pornográficos, no entanto, o que ele falava era tão somente da hipocrisia de uma sociedade. E ele está aí. Depois de morto, é o cara mais lido na atualidade, e eu particularmente adoro ler Nelson Rodrigues.” E virando-se para mim, perguntou:
“Você já leu o Anjo Pornográfico?”
“A biografia? Sim, já li.” (E eu de fato lera. Também gosto de Nelson Rodrigues.) “Viu, Saraiva? Vê-se logo que o rapaz aqui tem leitura. Deixa o cara vender o seu peixe. Quanto custa o teu livro, camarada?”
“Dez, doutor.” Sacou sua carteira com a insígnia da policia federal e retirou lá de dentro a quantia certa.
“Assina aí: Tenente Álvaro.” Autografei o livro com uma satisfação e com uma alegria que não cabia dentro de mim. Fiquei imaginando a reação Indignada daquele locutor com cara de Amado Batista.
“Prontinho!” Entreguei o exemplar a ele.
“Vou ler ainda hoje. E não esquenta não, ele vai divulgar o teu livro, não é Saraiva?”
 E aquele policial bom e sensato despediu-se dando uns tapinhas nas minhas costas. Saraiva virou-se para mim com uma cara de poucos amigos e disse:
“Escuta, Mário, eu vou divulgar o teu livro sem mencionar esses detalhes profanos aqui escritos, embora eu confesse a você que não sou um apreciador deste tipo de literatura.” E pegou o microfone e divulgou o livro. Foi estranho e engraçado ouvir o meu nome e o nome do livro sendo anunciado no alto falante daquela rádio que tinha alcance nos arredores do porto e ao longo da catedral da Igreja Matriz, chegando até as barraquinhas de feiras ali próximas. Não rolou entrevista alguma, é claro, tampouco apareceu alguém no estúdio para ver o livro ou conhecer o seu autor. Mas que importância tem isso? Pensei. Deixei o lugar com a certeza de mais uma vitória e subi feliz e confiante como um gigante pequeno a Avenida Eduardo Ribeiro em direção ao Bar Castelinho para comemorar com a poetinha Jordana que a esta altura, certamente já me aguardava com seu vestido longo e ofuscante da cor do sol...


domingo, 23 de junho de 2013

A RUIVA - FINAL



A VIDA É UM ISQUEIRO ACESSO

Não me sentia culpado. A culpa é um sentimento tão pessoal e líquido que logo se desfaz. Uma forma primitiva de se auto-condenar.  Um troço quadrilátero. Medieval. Um balão furado! Eu tinha podido comprar umas cervejas e prossegui pensando. O sistema humano quer sempre investigar a procedência da culpa. Sua raiz. Por que sentimos culpa? Acho que no fundo, a culpa é para quem possui alguma espécie de caráter ou vaidade. Como não possuo as duas coisas, então não posso ser penalizado, a não ser por mim mesmo. Sigo minha rota naval.  Minha estranha engenharia humana. Dispenso minha culpa e fico aqui com as minhas falhas e rachaduras do caráter. Eu analisava bestialmente essas questões tolas e infundadas, na amurada daquele barco, quando um sujeito me abordou:
“Poucos dão importância a um isqueiro porque não reconhecem o valor de sua chama. Hein? ” Me disse aquele sujeito com sotaque castelhano. O chapa usava um chapéu de côco na cabeça que lhe cobriam os cabelos ligeiramente grisalhos. Tinha um olhar e jeito expressivo de quem possuía certo conhecimento de alguma coisa. Apresentou-se. O nome era Pablo. Um jovem-homem-velho. Apertamos nossas mãos frias do vento daquele começo de noite.
“Desculpa, mas é que não entendi direito.” Ele riu e disse:
“Sou colecionador de Isqueiros. Hein?” Aí então ele sacou um isqueiro de formato estranho do seu bolso e o acendeu. “Este aqui folheado a prata com a base côncava, é um Dumont Suiço, 1946. Olhe a sua chama. Mesmo com o vento forte, jamais se apaga. Hein?” Fiquei olhando para o isqueiro e para o chapa. Mais essa, agora. Pensei. Ele ria enquanto mantinha a chama acessa daquele isqueiro.
“É... bem interessante, Pablo.”
“Interessante? Sua chama nem oscila.” Pensei em dizer-lhe: “Mas o que eu tenho haver com isto?” Foi quando ele apagou o isqueiro e perguntou:
“Está indo para onde?”
“Manaus. E você?”
“Eu apenas vou. Quer dar uma olhadinha na minha coleção de isqueiros?”
“Cara...”
“Vamos ali, eu te mostro. Estão no meu camarote.”
O chapa viajava num camarote maneiro, maior conforto. Ele abriu uma maletinha e me mostrou seus isqueiros. Um montão deles. Falava como uma criança emocionada mostrando seus brinquedinhos.
“Veja este aqui, é um autêntico zippo, 1962. Che Guevara fumou nele. Não é lindo? Hein? A chama também é dura. Resistente. Toque nele... hein? Acho que é esta estrutura metálica que reveste a chama. Já este Jim Beam aqui, é de New Orleans, 1932. No caso deste, a chama oscila, mas demora a apagar. Os negros trompetistas adoravam estes isqueiros. Dizem que Dizzy Gillespie usava um destes. Curte Jazz? Hein? Vou te mostrar este aqui. Olhe que beleza, é um Sumitono, isqueiro japonês da segunda guerra mundial. O preferido dos Kamikazes antes deles se arrebentarem com seus aviõeszinhos no chão. Hein? Ele é todo em prata maçisa. Olhe que beleza. Pode tocar. Não há mais chama nele. Dizem que era azul. Uma chama azul.”
“É bem legal mesmo, Pablo. Mas estou com fome agora.” Disse a ele.
“Ah, sim, vamos jantar, vamos jantar.”
O Santa Helena seguia veloz e valente enquanto eu fazia meu prato. Eles serviam uma suculenta comida. Me servi de grandes pedaços de frango cozido, arroz, toucinhos, feijão. Pablo não ficou atrás. Tinha um apetite bastante feroz. Sorria sentado ao meu lado. Aí ele me mostrou um outro isqueiro. Falava como se conspirasse o tempo todo:
“Já viu um destes?”
“Não, nunca vi.”
“Cara, é um genuíno Ronson inglês, 1970. Uma peça rara, hein? Hein? Ele é todo prateado com suas bordas laterais de ouro. Hein? E ele acende, veja sua chama!” Acendeu. “Comprei em Buenos Aires em 84, junto com um porta-isqueiro de opalina leitosa, tampa basculhante com pegador em pinha de bronze. Me desfiz do porta-isqueiro porque precisava de grana, mas do isqueiro não me desfaço nunca. Os isqueiros nos contam uma história.”
“E o que você faz da vida além de colecionar isqueiros, Pablo?” Perguntei aquilo enquanto mordia aquele pedaço de frango bom.
“Nada. Só coleciono isqueiros e viajo pelo mundo. Hein?”
“Tá...” Ele se chegou mais próximo de mim e sussurrou:
“Olha, preste bem atenção neste aqui!”
“O que tem ele?”
“Bom, ele tem essas abas laterais estilo napoleônico, de madeira, tampo prateado... o preferido de Cristian Andersen. Dizem que ele fumou muito neste isqueiro enquanto escrevia o Soldadinho de Chumbo. Andersen fumava sem parar. Fumava como ninguém... Uma chaminé humana. Hein?”
“O cara das fábulas?”
“Hein?”
“Cara...”
“E você, o que você coleciona na vida?”
Pensei enquanto mordia aquele último pedaço de frango.
“Eu... bom, Pablo, eu não coleciono nada, cara.”
“Hein?”
“Eu tentei colecionar vidros de perfume franceses, mas não deu muito certo, não.”
“Nem rótulos de vinho? Conheci um cara em Córdoba que colecionava rótulos de vinhos. Ele andava sem sentido na vida, querendo se matar, então eu disse a ele que ele precisava se dedicar a colecionar alguma coisa. Hoje ele coleciona rótulos de vinhos... Hein?”
“Acho que coleciono desgraças, Pablo.”
Ele sorriu assustado, meio incrédulo, voltando a mastigar. Mastigava conservando a boca fechada. Os cantos dos seus lábios subiam e desciam maquinalmente como uma engrenagem estranha. Ficou sério enquanto mastigava. O sujeito era um tipo.
Saímos dali e fomos para seu camarote. Ele excitado me mostrou mais isqueiros de sua coleção. O sentido da vida para aquele homem era mesmo colecionar isqueiros. A patologia humana é bem interessante. Digna de investigação. Mas eu estava sem saco. Pedi licença e sai um instante e fui para a sacada do barco. De alguma maneira eu queria estar só. Olhando as luzes dos vilarejos acesos de Macondo. Vagalumes! Milhares deles acessos. E o quanto mais pudessem existir no mundo. Olhava para aqueles pontos luminosos. Tudo é um ponto indecifrável piscando dentro da gente. Eu fazia o meu caminho de volta. Solitário. Sem planos. O frio me estalando os ossos. Nem um cheiro de xota por perto para me roubar a paz. Nada. Eu, eu mesmo, aquele rio escuro... e o cara dos isqueiros me ensinando o valor de uma chama acessa. Começou a relampear. Vi se aproximar uma tempestade:
“Hein? Acho que não lhe mostrei este ainda.” Disse o chapa se aproximando outra vez. “É um antigo e popular isqueiro francês em forma de uma moeda de cinco francos. Pertenceu á Napoleão.”
“O Bonaparte?”
“Este mesmo. Hein? Hein?
“Você está dizendo, Pablo...”
Ele ainda acende, e sua chama é forte e azul. Não é incrível?”
“Bom...”
“Ele tem um formato redondo e seu revestimento é todo de chumbo. Repare só a gravura estampada nele... é de um brasão de guerra que salta os olhos. O seu pavio é de algodão embebido de querosene ou tirebintina que possui uma essência inflamável feita toda de casca de laranja... não é incrível? Hein?” Ai Pablo ficou estranhamente triste enquanto me dizia: “O homenzinho fumou neste aqui na véspera de sua derrota em Waterloo. Foi sua última batalha, e havia aquela tempestade que desabou de repente... Ele poderia ter recuado sabiamente, mas preferiu esperar o momento certo e avançar... Ora, o homenzinho não era de perder nenhuma batalha. Mas ele estava nervoso. Fumava um cigarro atrás do outro. Acendeu-os neste isqueiro aqui! Olhe bem pra ele, hein? Seus setenta e dois mil homens já haviam sofrido baixa contra o exército inglês, e ele andava preocupado. Fumando um cigarro atrás do outro. Mas o homenzinho era teimoso. Esperou que a tempestade passa-se e que a terra enfim secasse, já que a chuva havia transformado o campo de batalha num lamaçal, e aí então ele ordenou o avanço de sua tropa. Mas antes, ele escreveu em seu diário a seguinte frase: “O erro, é um destino que se cumpre com heroísmo.” Foi o que ele escreveu ali sentado, sozinho. Ele parecia advinhar. Advinhamos quando o fim está próximo. Sabe-se lá o que se passava na cabeça do homenzinho. Mas de uma coisa fique certo, o sujeito não era um cara que se entregava à-toa. Mesmo acuado, era capaz de ver o sol brilhar atrás da névoa. Ele sabia, portanto, que não havia reinado no céu. Somente na terra é que imperamos; que escrevemos nossa história. E ele então investiu contra o inimigo com sua famosa Guarda Imperial - a elite de seus veteranos. Mesmo em inferioridade numérica, o homenzinho teria de atacar. E o resto todos nós sabemos. Está lá nas páginas de Guerra e Paz... Numa guerra, meu chapa, é preciso sempre manter a chama de um isqueiro acessa. Fique com este! É seu. Hein?” Disse Pablo. “Vou pegar umas cervejas, pra gente.” E o chapa então se foi e não voltou mais. Fui sentindo gradualmente sua ausência. Não vou dizer que não cismei em procurá-lo. Pois fui. Fui até lá embaixo. Subi outra vez. Bati no seu camarote. Não havia nada do outro lado. Sequer um ruído. Eu nunca mais o veria. Vida louca. Eu devia ter dado mais atenção aquele chapa. Agradecer pelo isqueiro, sei lá. Um vento soprou com mais força e eu senti uns respingos gelados na nuca. Começou a cair um pau d´água, acompanhado de fortes relâmpagos. As lonas foram baixadas. Fez-se um silencio estranho no barco. Se ele afundasse de repente, ninguém ia sentir dor. Será? Caminhei desesperado até o bar. Sem álcool e sem buceta ninguém vive.
 “Tô fechando, amigo!” Falou uma bicha velha que tomava conta do bar.
“Pelo amor de Deus, chefe, me vende só uma garrafa daquelas ali no canto pra suportar o frio.” Apontei para uma garrafa de vodika vagabunda.
“Oito!” Eu só tinha cinco. O barco balançava. Um frio desgraçado. Tentei negociar com a bicha velha:
“Esse barco vai afundar, cara, e eu preciso de um trago disso aí.” Ele me esconjurou. Deixou por cinco. Era tudo que me restava, aqueles cinco reais. Quando chegasse à Manaus, eu daria um jeito. Se chegasse. Sério. O barco balançava com o forte temporal. Um raio iluminou o rosto duro e escroto da bicha velha. Seus olhos estavam pulados, bastante assustados. Eu vi o medo dentro daqueles seus olhos saltados. Ele tratou de fechar o bar. Peguei a garrafa, e há muito custo, me dirigi mais uma vez para o camarote do sujeitinho. Bati outra vez, mas necas. Nenhum sinal do gringo. “Onde ele se meteu, esse filho da puta!” Eu balançava pra lá e pra cá com a garrafa no corredor. Desci ligeiramente as escadas e fui pra minha rede. Deitado, tomei uma grande golada daquilo. Senti relaxar por dentro. Já se ouvia o desespero das pessoas; suas almas agitadas apanhando seus salva-vidas. Choros de crianças, mulheres, marmanjos. Fui capaz de rir. Ri bastante alto em meio à claridade sinistra dos relâmpagos e o desespero dos tripulantes. Tolice. Quando a morte chegasse, ninguém escaparia. Ninguém é digno de escapar. Acendi o isqueiro que Pablo me dera. Fiquei olhando sua chama. A morte nos torna iguais. Pequenos anões. Fechei meus olhos...
                                                   
                                                                           Manaus, 21 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A RUIVA - PARTE XIII



 VALENTINA

Morava em uma taperazinha simples á beira do rio, num lago chamado Remanso do Boto - há poucos minutos da Ilha, atravessando de canoa. Lembro-me bem do silencio daquele lago. Do cheiro do rio. Do voo livre dos pássaros e das estripulias dos botos logo ao amanhecer. Aceitei ficar um tempo ali enquanto recuperava as forças para puder andar e pensar direito. Enquanto isso bolava uma maneira de regressar para Manaus. Nesse meio termo, que prolongou-se por longos meses, Valentina não se descuidou um só instante de mim. Me alimentou, me deu amor, carinho e também me ensinou o jogo dos sinais que devagar fui assimilando durante as tardes frescas à sombra de um jambeiro que protegia a taperazinha do sol forte e tirânico daqueles dias quentes e escaldantes de verão parintinense. Quando começamos a nos entender, ela me disse com as mãos:
“Eu-vou-cui-dar-de-vo-cê.Vou-cu-rar-sua-dor.”
“Mas-não-sin-to-dor-al-gu-ma,Va-len-ti-na. Sou-um-ca-ra-in-sen-sí-vel. Um-ho-mem-a-ni-qui-la-do-pe-la-au-sên-cia-da-dor.”
Ela sorriu, apontando com o dedo na direção do meu peito onde fica o coração. Respondi, “An-an, meu-bem. A-dor-es-tá-a-qui.” Direcionei o seu dedo na direção da cabeça. Acho que entendeu porque me olhou contrariada. Não dissemos mais nada. Ficamos o resto da tarde ouvindo o ruído rouco das terras caindo devagar das ribanceiras, tingindo de amarelo, o rio lá embaixo. Era como se o tempo tivesse parado restando apenas nós dois respirando naquela pequena porção de ilha paradisíaca. Pensei em aproveitar a paz daquele lugar para escrever um pouco. Prostrava-me nos finais da tarde olhando o rio, esperando talvez por alguma inspiração. Mas, necas. Apenas o silencio afogando-se na paz do meu nada interior. E os dias foram se arrastando bem devagar. Fui sacando Valentina. Ela me queria ali como seu homem para o resto da vida. Ela me provocava, me atiçava. Valentina tinha uma perna curtinha e uma rótula pequenininha que parecia solta. Ficava ali brincando entediadamente com sua rótula, até ela bocejar e me dizer: “Vou-dei-tar, tá-pai?!” Dizia ela. Tinha um sono de pedra e não roncava.  Um dia, não resistindo as suas investidas, acabamos trepando debaixo do imenso jambeiro. Eu tinha que gratificá-la de alguma maneira. Foi a minha primeira experiência sexual com uma anã. Sugeri um sessenta e nove. Assim, evitaria encarar de frente o seu rosto com aquele alfinetão atravessado no nariz e também aquela imensa argolona esgarçando-lhe a orelha. Meu pau não responderia olhando aquilo. Topou. Enquanto ela chupava o meu pênis, eu introduzia minha língua em sua fenda enorme. Quem disse que anã tem fenda pequena? Não sei quanto às outras, mas Valentina tinha uma fenda enorme e acolchoadinha de meter. Capaz de viciar qualquer pau. Um dia, botei aquela pequena massa de mulher de quatro e acabei metendo naquela fenda. E depois em seu cu. Ficamos ali o resto da tarde brincando. Brincávamos todas as tardes. Uma brincadeira que me custaria caro.
Valentina me ensinou a pescar. Pegávamos a canoa e íamos pescar em um furo, próximo dali. Havia peixe á beça. O excedente, vendíamos no porto, no mercado Municipal. Valentina tinha uma pequena barraca de peixes e frutas. Eu a ajudava a vender o pescado. Era como tirávamos o nosso sustento. Fui economizando umas migalhas, porque uma hora daquelas, eu precisaria dar no pé. Não vou dizer que não foram dias de muita paz e sossego ao lado daquela minha pequena amante dedicada, mas eu precisava partir. Eu teria que fazer isso de algum modo, sem magoá-la. Horas, dias, semanas, meses, foram se passando... Já estava ficando bem negra minha pele do sol das manhãs e tardes ociosas em que passava pescando ou sem fazer absolutamente nada. E também estava ficando gordo. Acima do peso. Um dia fisgando um peixe, pensei na palavra liberdade. Resolvi rascunhar algo: “Vivo uma certa liberdade mas sei que ela não existe. Liberdade não rima com eternidade. E a dor? Rima com quê? Com amor? Aprendi a pescar, mas me recuso a amar. O meio faz do homem um elemento insensível. Incapaz de sentir dor. Valentina me ensinaria os caminhos do amor? Olho o horizonte agora. Mergulhões plainam neste céu de mistério e paz. Caem como suicidas mergulhando no rio para abocanhar o seu alimento. Minha pele escura do sol. Minha alma oscilante divaga com um leve banzeiro. Sinto o suspiro de uma natureza morta que me cerca. O que eu estou fazendo neste fim de mundo, afinal? Não posso amolecer. ” Ia melhorar aquilo. Achei meloso demais. Minha cabeça é mesmo um quarto bagunçado. Guardei no bolso o que tinha escrito e continuei a pescar. Vi Valentina me olhando de longe. Acenava para mim. Ela estava feliz. Radiante. Ela me resgatou do inferno. Fechou minhas feridas. Me devolveu a dignidade e a macheza. E agora eu queria ir embora. Mas o pior viria depois:
“Es-tou-es-pe-ran-do-um-fi-lho-seu, Má-rio-Au-gus-to!” Aquilo foi como um alicate torcendo meus ovos. Passei minhas mãos nos cabelos tentando esconder meu desespero.
“Vo-cê-tá-de-sa-ca-na-gem, Va-len-ti-na!” Mas ela esfregou levemente suas mãozinhas sobre a barriga e sorriu docemente. Eu estava literalmente fodido. Fui para fora da taperazinha fumar. Uma lua sem graça equilibrava-se no céu. O rio cintilante brilhava como escamas de um tucunaré zombando de minha malha de tragédias. E agora mais essa! O que faço? Não tinha como dizer não para Valentina. Seu ventrezinho crescia. Era nauseante. Eu tinha que arquitetar um plano urgente. Imagine eu sendo pai. Como seria aquele rebento? Se nascesse um anão? Não, eu tinha que dar o fora dali o mais rapidamente. Trabalhei duro ajudando Valentina na sua barraca de peixes para economizar uns trocados, fingindo estar tudo bem, e quando apurei a quantia certa – o suficiente para poder comprar o bilhete de barco, me dirigi apressado até o porto. Para o meu azar, os barcos ali atracados só partiriam no sábado, e era uma terça-feira, de modo que eu teria que esperar mais alguns dias. Eu não agüentaria. Foi então que um mariscador que bebia por ali, e que ouviu minha conversa com o embarcadiço, me chamou no canto e disse:
“Mas olhe bem, patrão, o Santa Helena que vem de Santarém vai passar amanhã, as cinco em ponto da madrugada. É um barco ajato. Ele faz uma paradinha de dez minutos e depois parte. Não tem escala não, e ele só para se tiver alguém no porto acenando. O senhor tem que ser esperto e estar aqui as cinco em ponto da manhã.” A idéia do cara me reanimou. Era naquele mesmo. Não tinha outro jeito. Paguei mais uma pinga àquele mariscador pela informação que me dera e acabei descobrindo que ele possuía uma rabetinha, e, portanto, contratei os serviços daquele chapa. Ele me apanharia as quatro em ponto no beiradão do Remanso. Naquele resto de dia, Valentina fazia planos para nós três. Valentina... Ouvia seus planos para o futuro sem dizer nada, só concordando. Sorte minha, que Valentina tinha um sono de pedra (pelo menos era o que eu achava) Esperei que ela dormisse, e as três em ponto, peguei minhas tralhas (pouca coisa: umas poucas roupas, uma rede e só) e caminhei até á margem do Remanso para esperar o mariscador vir me buscar. Fazia uma noite fria, sem estrelas. Nada me azucrinava os sentimentos. Nem mesmo os grilos cantando infernalmente. Eu tinha uma vida ordinária em Manaus. Mas eu precisava voltar para ela. Para meu cachorro Príapo que havia deixado aos cuidados do vizinho. Este meu estado poliédrico da alma. Vi a rabetinha se aproximar. Quando atracou, cuidei apressadamente de botar minhas coisas dentro e partimos. No caminho, com o vento frio soprando meu rosto, pensei: “Toda criatura foge. Eu fugia para aonde? De quem afinal eu fugia? De que destino afinal fugimos todos nós? A verdade é que a gente sempre dá um jeito de escapar. Ao desembarcar no porto, me coloquei de prontidão, a espera do barco. A noite ainda era escura e fria. Mas já havia certo vozerio no cais. Comprei uma cerveja e esperei com o olhar duro e atento para o horizonte certo, de onde provavelmente assomaria o Santa Helena.  Fiquei enrolando ali com aquela única cerveja. A Ilha Tupinambarana atrás de mim, calada, em silencio. Nem parecia o mesmo inferno de quando cheguei ali a uns meses atrás. E tudo aquilo que passei, meu Deus, quem acreditaria?Aí então vi amanhecer devagar o dia e o Santa Helena que era um barco veloz,  enorme e salvador, já vinha vindo soprando bem longe sua trombeta de Jericó. Corri para o píer, e lá ao chegar, já havia umas poucas almas penadas de vigília, prontas também para embarcar. Acenávamos desesperados para ele parar. Ele foi mudando levemente sua proa e veio vindo valente em nossa direção. Atracou. Entramos. Paguei minha passagem. Tudo certo. Armei minha rede na parte de cima. Não levou nem dez minutos, e o barco já se preparava para desatracar de Parintins, soprando novamente sua trombeta de Jericó. Fui olhar da amurada o barco partir. Olhar a Ilha pela última vez. Tal qual foi minha surpresa e espanto ao ver correndo para pegar aquele barco, a figura de Valentina. Puta que pariu, não pode ser! Ela não pode embarcar! Ela não vai embarcar! Ela já tinha me visto, porém. Parou na extremidade do Pier. Pensei que ia se jogar no rio e nadar até o barco. Mas, não. Ficou ali estatalada. Vi seus olhinhos profundamente tristes. Suas mãoszinhas deslizando sobre o ventrizinho saliente que carregava um filho meu. Eu parecia ler seus dedos labiais de longe dizendo: “Mário, meu amor, não me deixe aqui sozinha nessa situação, por favor!” Ou era o espírito porco da minha consciência suja e imprestável que me dizia aquilo? As trombetas de Jericó suaram mais uma vez. Já nos distanciávamos pra valer. Eu via a Ilha ficando lá atrás para sempre com um pequeno ponto perdido que era Valentina que não cansava de acenar. Continuei inflexível. Sem um gesto de compaixão. Engoli uma saliva seca e foi só. Eu precisava partir, gente...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A RUIVA - PARTE XII



 O ESTUPRO

Andei toda a Parintins atrás da minha dor. Ela tinha que existir em algum lugar. Talvez provocando o interior dos homens daquela ilha, eu arrancaria de dentro deles a minha dor verdadeira. Não tinha mesmo o que perder. Eu estava sozinho e fodido e não conseguia lembrar onde eu havia conseguido aquela garrafada que me abrira uma pequena cratera na cabeça, e agora o sangue encharcava-me a roupa. Mas eu não sentia dor alguma. Eu apenas seguia cambaleando ensangüentado, alheio em meio a toda aquela horda que dançava o dois pra lá e dois pra cá e ouvindo uma abelha que zumbinizava dentro da minha cabeça. Foi aí então que entrei naquele boteco de homens rudes, já bem distante do centro. Uns caras mal encarados jogavam sinuca, outros bebiam cachaça. Sentei numa das mesas com o meu Deus que me dava sustentação e coragem. A abelha continuava zumbinizando. Ninguém ali se importava com a minha dor porque eu não sentia dor alguma. Mais lá pra frente, a minha presença ensanguentada e os palavrões que eu lançava a esmo no ar, em alto e bom tom, já começava a incomodar o dono do boteco e a clientela toda. Os homens já me olhavam sérios e duros. “A dor é uma mentira!” Disse a eles. O cara da sinuca errou uma tacada. NÃO ERA MAIS UMA ABELHA QUE ZUNIA DENTRO DA MINHA CABEÇA, MAS, VÁRIAS. MINHA CABEÇA ERA UMA COLMÉIA INFERNAL. EU PRECISAVA ME LIVRAR DAQUELAS ABELHINHAS INFERNAIS. Aí comecei a provocar os caras da sinuca. Tirar suas concentrações. Xingá-los:
“Você é um erro porque sente dor!!” Disse a um deles. A bola treze que liquidaria aquela partida, não entrou. O taco de madeira tremia nas mãos de um dos caras. Senti quando um deles atingiu-me certeiro com o taco no meio da testa. Vi tudo girar, emborcado ao chão: o botecozinho fuleiro, o seu forro de zinco; todos aqueles homens rudes. “Mais respeito, filho da puta!” Dois deles me pagaram pelos braços e me arrastaram pros fundos. O velho, dono do boteco, fechou a porta de ferro de levantar. O cara do taco arriou o zíper da calça. Tinha um rosto feio por causa de sua cicatriz de peixeiro. Os outros já não recordo bem. Mas eram fortes e maus. “Vira ele de bruço!” Vamos ver se ele não sente dor. Falou o da cicatriz. Abriram minhas pernas. Pedi a Deus que fossem rápidos. Aí então eu fechei definitivamente os meus olhos com medo de sentir dor. Senti algo me rasgando. Me dilacerando. Depois, só um liquido vermelho e pegajoso descendo quente e calmo por entre as minhas pernas...

***
Acordei em uma cama ordinária de um hospital, com uns tubos enfiados no nariz e nos braços. Acho que me alimentava por ali. Não tinha sido um sonho. Eu podia sentir alma e corpo moralmente aniquilados. Sem honra. Sem nada. E aquelas fortes ferroadas no ânus. Era como uma carne se fechando devagar. Quando recuperei as forças, perguntei àquela enfermeira que checava o tubo de soro:
“Quanto tempo, estou aqui?”
“Há duas semanas, senhor.”
“O que aconteceu?”
“O senhor sofreu um coma alcóolico e fez uma operação de sutura. Mas já está se recuperando.”
“E como vim parar aqui?”
“Uma anãzinha encontrou o senhor jogado em uma calçada e trouxe o senhor para cá.”
“E onde está ela?”
“Está aí fora! Quer que mande entrar?” Não soube o que dizer. Então a vi entrar. O enorme alfinetão atravessado no nariz. Era Valentina. Mordia uma maçã. Sentou numa cadeira e me cumprimentou com os sinais:
“Não dá! Não consigo entender o que diz, Valentina. Mas obrigado por tudo.” Não parava de fazer os sinais com as mãos. Depois, ficou me olhando penalizada. Dava-me sopa na boca. Cuidou de mim enquanto estive naquele hospital me recuperando. Fiquei ainda alguns dias. Quando precisei desocupar o leito, eu não tinha praticamente aonde ir. Nem dinheiro pra voltar á Manaus, nem Deus na mochila, nada! Levaram-me tudo. Foi quando Valentina me chamou pra ficar um tempo com ela.