sexta-feira, 21 de junho de 2013

A RUIVA - PARTE XIII



 VALENTINA

Morava em uma taperazinha simples á beira do rio, num lago chamado Remanso do Boto - há poucos minutos da Ilha, atravessando de canoa. Lembro-me bem do silencio daquele lago. Do cheiro do rio. Do voo livre dos pássaros e das estripulias dos botos logo ao amanhecer. Aceitei ficar um tempo ali enquanto recuperava as forças para puder andar e pensar direito. Enquanto isso bolava uma maneira de regressar para Manaus. Nesse meio termo, que prolongou-se por longos meses, Valentina não se descuidou um só instante de mim. Me alimentou, me deu amor, carinho e também me ensinou o jogo dos sinais que devagar fui assimilando durante as tardes frescas à sombra de um jambeiro que protegia a taperazinha do sol forte e tirânico daqueles dias quentes e escaldantes de verão parintinense. Quando começamos a nos entender, ela me disse com as mãos:
Eu-vou-cui-dar-de-vo-cê.Vou-cu-rar-sua-dor.”
“Mas-não-sin-to-dor-al-gu-ma,Va-len-ti-na. Sou-um-ca-ra-in-sen-sí-vel. Um-ho-mem-a-ni-qui-la-do-pe-la-au-sên-cia-da-dor.”
Ela sorriu, apontando com o dedo na direção do meu peito onde fica o coração. Respondi, “An-an, meu-bem. A-dor-es-tá-a-qui.” Direcionei o seu dedo na direção da cabeça. Acho que entendeu porque me olhou contrariada. Não dissemos mais nada. Ficamos o resto da tarde ouvindo o ruído rouco das terras caindo devagar das ribanceiras, tingindo de amarelo, o rio lá embaixo. Era como se o tempo tivesse parado restando apenas nós dois respirando naquela pequena porção de ilha paradisíaca. Pensei em aproveitar a paz daquele lugar para escrever um pouco. Prostrava-me nos finais da tarde olhando o rio, esperando talvez por alguma inspiração. Mas, necas. Apenas o silencio afogando-se na paz do meu nada interior. E os dias foram se arrastando bem devagar. Fui sacando Valentina. Ela me queria ali como seu homem para o resto da vida. Ela me provocava, me atiçava. Valentina tinha uma perna curtinha e uma rótula pequenininha que parecia solta. Ficava ali brincando entediadamente com sua rótula, até ela bocejar e me dizer: “Vou-dei-tar, tá-pai?!” Dizia ela. Tinha um sono de pedra e não roncava.  Um dia, não resistindo as suas investidas, acabamos trepando debaixo do imenso jambeiro. Eu tinha que gratificá-la de alguma maneira. Foi a minha primeira experiência sexual com uma anã. Sugeri um sessenta e nove. Assim, evitaria encarar de frente o seu rosto com aquele alfinetão atravessado no nariz e também aquela imensa argolona esgarçando-lhe a orelha. Meu pau não responderia olhando aquilo. Topou. Enquanto ela chupava o meu pênis, eu introduzia minha língua em sua fenda enorme. Quem disse que anã tem fenda pequena? Não sei quanto às outras, mas Valentina tinha uma fenda enorme e acolchoadinha de meter. Capaz de viciar qualquer pau. Um dia, botei aquela pequena massa de mulher de quatro e acabei metendo naquela fenda. E depois em seu cu. Ficamos ali o resto da tarde brincando. Brincávamos todas as tardes. Uma brincadeira que me custaria caro.
Valentina me ensinou a pescar. Pegávamos a canoa e íamos pescar em um furo, próximo dali. Havia peixe á beça. O excedente, vendíamos no porto, no mercado Municipal. Valentina tinha uma pequena barraca de peixes e frutas. Eu a ajudava a vender o pescado. Era como tirávamos o nosso sustento. Fui economizando umas migalhas, porque uma hora daquelas, eu precisaria dar no pé. Não vou dizer que não foram dias de muita paz e sossego ao lado daquela minha pequena amante dedicada, mas eu precisava partir. Eu teria que fazer isso de algum modo, sem magoá-la. Horas, dias, semanas, meses, foram se passando... Já estava ficando bem negra minha pele do sol das manhãs e tardes ociosas em que passava pescando ou sem fazer absolutamente nada. E também estava ficando gordo. Acima do peso. Um dia fisgando um peixe, pensei na palavra liberdade. Resolvi rascunhar algo: “Vivo uma certa liberdade mas sei que ela não existe. Liberdade não rima com eternidade. E a dor? Rima com quê? Com amor? Aprendi a pescar, mas me recuso a amar. O meio faz do homem um elemento insensível. Incapaz de sentir dor. Valentina me ensinaria os caminhos do amor? Olho o horizonte agora. Mergulhões plainam neste céu de mistério e paz. Caem como suicidas mergulhando no rio para abocanhar o seu alimento. Minha pele escura do sol. Minha alma oscilante divaga com um leve banzeiro. Sinto o suspiro de uma natureza morta que me cerca. O que eu estou fazendo neste fim de mundo, afinal? Não posso amolecer. ” Ia melhorar aquilo. Achei meloso demais. Minha cabeça é mesmo um quarto bagunçado. Guardei no bolso o que tinha escrito e continuei a pescar. Vi Valentina me olhando de longe. Acenava para mim. Ela estava feliz. Radiante. Ela me resgatou do inferno. Fechou minhas feridas. Me devolveu a dignidade e a macheza. E agora eu queria ir embora. Mas o pior viria depois:
“Es-tou-es-pe-ran-do-um-fi-lho-seu, Má-rio-Au-gus-to!” Aquilo foi como um alicate torcendo meus ovos. Passei minhas mãos nos cabelos tentando esconder meu desespero.
“Vo-cê-tá-de-sa-ca-na-gem, Va-len-ti-na!” Mas ela esfregou levemente suas mãozinhas sobre a barriga e sorriu docemente. Eu estava literalmente fodido. Fui para fora da taperazinha fumar. Uma lua sem graça equilibrava-se no céu. O rio cintilante brilhava como escamas de um tucunaré zombando de minha malha de tragédias. E agora mais essa! O que faço? Não tinha como dizer não para Valentina. Seu ventrezinho crescia. Era nauseante. Eu tinha que arquitetar um plano urgente. Imagine eu sendo pai. Como seria aquele rebento? Se nascesse um anão? Não, eu tinha que dar o fora dali o mais rapidamente. Trabalhei duro ajudando Valentina na sua barraca de peixes para economizar uns trocados, fingindo estar tudo bem, e quando apurei a quantia certa – o suficiente para poder comprar o bilhete de barco, me dirigi apressado até o porto. Para o meu azar, os barcos ali atracados só partiriam no sábado, e era uma terça-feira, de modo que eu teria que esperar mais alguns dias. Eu não agüentaria. Foi então que um mariscador que bebia por ali, e que ouviu minha conversa com o embarcadiço, me chamou no canto e disse:
“Mas olhe bem, patrão, o Santa Helena que vem de Santarém vai passar amanhã, as cinco em ponto da madrugada. É um barco ajato. Ele faz uma paradinha de dez minutos e depois parte. Não tem escala não, e ele só para se tiver alguém no porto acenando. O senhor tem que ser esperto e estar aqui as cinco em ponto da manhã.” A idéia do cara me reanimou. Era naquele mesmo. Não tinha outro jeito. Paguei mais uma pinga àquele mariscador pela informação que me dera e acabei descobrindo que ele possuía uma rabetinha, e, portanto, contratei os serviços daquele chapa. Ele me apanharia as quatro em ponto no beiradão do Remanso. Naquele resto de dia, Valentina fazia planos para nós três. Valentina... Ouvia seus planos para o futuro sem dizer nada, só concordando. Sorte minha, que Valentina tinha um sono de pedra (pelo menos era o que eu achava) Esperei que ela dormisse, e as três em ponto, peguei minhas tralhas (pouca coisa: umas poucas roupas, uma rede e só) e caminhei até á margem do Remanso para esperar o mariscador vir me buscar. Fazia uma noite fria, sem estrelas. Nada me azucrinava os sentimentos. Nem mesmo os grilos cantando infernalmente. Eu tinha uma vida ordinária em Manaus. Mas eu precisava voltar para ela. Para meu cachorro Príapo que havia deixado aos cuidados do vizinho. Este meu estado poliédrico da alma. Vi a rabetinha se aproximar. Quando atracou, cuidei apressadamente de botar minhas coisas dentro e partimos. No caminho, com o vento frio soprando meu rosto, pensei: “Toda criatura foge. Eu fugia para aonde? De quem afinal eu fugia? De que destino afinal fugimos todos nós? A verdade é que a gente sempre dá um jeito de escapar. Ao desembarcar no porto, me coloquei de prontidão, a espera do barco. A noite ainda era escura e fria. Mas já havia certo vozerio no cais. Comprei uma cerveja e esperei com o olhar duro e atento para o horizonte certo, de onde provavelmente assomaria o Santa Helena.  Fiquei enrolando ali com aquela única cerveja. A Ilha Tupinambarana atrás de mim, calada, em silencio. Nem parecia o mesmo inferno de quando cheguei ali a uns meses atrás. E tudo aquilo que passei, meu Deus, quem acreditaria?Aí então vi amanhecer devagar o dia e o Santa Helena que era um barco veloz,  enorme e salvador, já vinha vindo soprando bem longe sua trombeta de Jericó. Corri para o píer, e lá ao chegar, já havia umas poucas almas penadas de vigília, prontas também para embarcar. Acenávamos desesperados para ele parar. Ele foi mudando levemente sua proa e veio vindo valente em nossa direção. Atracou. Entramos. Paguei minha passagem. Tudo certo. Armei minha rede na parte de cima. Não levou nem dez minutos, e o barco já se preparava para desatracar de Parintins, soprando novamente sua trombeta de Jericó. Fui olhar da amurada o barco partir. Olhar a Ilha pela última vez. Tal qual foi minha surpresa e espanto ao ver correndo para pegar aquele barco, a figura de Valentina. Puta que pariu, não pode ser! Ela não pode embarcar! Ela não vai embarcar! Ela já tinha me visto, porém. Parou na extremidade do Pier. Pensei que ia se jogar no rio e nadar até o barco. Mas, não. Ficou ali estatalada. Vi seus olhinhos profundamente tristes. Suas mãoszinhas deslizando sobre o ventrizinho saliente que carregava um filho meu. Eu parecia ler seus dedos labiais de longe dizendo: “Mário, meu amor, não me deixe aqui sozinha nessa situação, por favor!” Ou era o espírito porco da minha consciência suja e imprestável que me dizia aquilo? As trombetas de Jericó suaram mais uma vez. Já nos distanciávamos pra valer. Eu via a Ilha ficando lá atrás para sempre com um pequeno ponto perdido que era Valentina que não cansava de acenar. Continuei inflexível. Sem um gesto de compaixão. Engoli uma saliva seca e foi só. Eu precisava partir, gente...

Nenhum comentário:

Postar um comentário