IV -
O ÍNDIO
Era qualquer hora como três da tarde daquele junho de
2007. Uma tarde dura. De calor emburrado nos trópicos. Cansado e triste como a
sombra de um peido, vinha eu subindo molemente a Avenida Eduardo Ribeiro com os
meus livretos debaixo do braço e com alguma esperança besta na alma. Não havia
vendido nada até ali, e ainda tive o azar de cruzar com o garçom judeu do Bar
do Lusitano que me parou frente a uma loja de eletrodomésticos e disse:
“E aí, Mário Augusto, ainda não desistiu desse negócio
aí de escrever livros, não? Rapaz, tem que pensar no futuro. Na tua
aposentadoria. A velhice é um aleijão, meu caro.” Bom, eu não soube o que dizer pra ele. Tentei
até esboçar algumas palavras, mas não saiu nada. Minhas mãos ficaram abertas no
ar. Cara de besta. Quando dei por mim, o cara já ia longe e triunfal dobrando a
esquina. Fazer o quê? Com o sangue fervendo segui subindo a Eduardo Ribeiro. Quando
se está fodido, vem outro e te esmaga. É como viver com uma matilha de cães
filhos das putas mordendo o teu traseiro o tempo todo. Parei na pizzaria do
Largo São Sebastião e observei atentamente o fluxo. Avistei de pronto um grupo
de pessoas alegres que sorriam sentados em torno de uma mesa. Bebiam e comiam uma
grande pizza. O curioso é que todos usavam camisas brancas iguais com dizeres
reluzentes estampados no peito:
Consumidores.
Uma cena bem surreal, convenhamos. Me aproximei da mesa deles:
“Olá, boa tarde! Vocês são consumidores?”
“Sim, somos!” Responderam todos de uma só vez. Eram
pessoas muito alegres mesmo: senhoras, senhores, jovens e até crianças.
“Consomem tudo mesmo?”
“Tudo mesmo!”
“Consomem livros, também?”
“Consumimos tudo, meu senhor!” Responderam todos alegremente
e ao mesmo tempo. Parecia propaganda de pasta de dente.
“É que vendo livros, sabem?”
“Ohhh”. Disseram espantados.
“Sou eu mesmo que os escrevo.”
“Ohhh!”
“Vendo-os a dez reais cada um deles.” Todos desembolsaram
a grana num gesto único e maquinal. E ficaram olhando sorridentes para mim ali
parado. Como um político, fui apertando a mão de cada um deles. Era como se eu
estivesse dentro de uma película neo-surrealista. Depois parti pensando: “O que
há de errado com os consumidores, afinal? São caras legais...”
Parei no Bar Castelinho para tomar minha costumeira
cerveja porque já não aguentava mais de tanto calor, sede, suor, tédio. Foi lá
que reencontrei o velho Índio. Ele me viu e veio sentar ao meu lado:
“Grande Mário Augusto! Eu precisava mesmo falar
contigo.” Eu na verdade nunca soube o nome do cara. Chamava-o por Índio por se
tratar mesmo de um índio. Um Baniwa. Sujeito Magro, cabelos negros e escorridos
sobre o rosto triangular. Cara chato. Solitário. Sua solidão me incomodava. Mas
naquele dia ele tinha uma carta nas mangas que me jogaria no precipício de
ocorrências malucas e que mudaria o curso dessa história. Vejamos:
“Diga lá, velho!” Levei meu copo com cerveja até a
boca com uma lentidão escrota e esperei ele falar:
“Conheci uma ruiva linda! E você sabe que tenho tesão
enorme por ruivas. Cara, eu fico louco! É como uma doença que não tem cura.”
Olhei e notei que seus peitos estavam maiores. Peitos de mulher. O cara estava
usando hormônios ou o quê? Aquilo me incomodou. Mas não falei nada. Me aparece
cada um. Continuou:
“Estou pensando em ir ao encontro
dela. Mas não quero ir sozinho, tá ligado? Preciso de uma companhia.”
“E ela mora onde, a figura?”
“Cara, - tomando uma golada da sua
cerveja – ela mora em Parintins.”
“Caralho, porra!
E como tu conheceu essa ruiva?”
“Pela internet. Ruiva linda! Não é tintura, não. É
ruiva legítima!”
“E como tu sabes que se trata de uma
ruiva legítima?”
“Ela me jurou com lágrimas nos olhos. Jurou chorando. Aquilo
me tocou, cara, e, eu, estou assim, vidrado, saca?’
“E onde eu entro nessa história?”
“Quero que vá comigo nesta viagem. Pago a nossa
passagem e tudo. Esquenta, não!”
Quando
ele foi ao banheiro eu pensei em itálico. ABRE ASPAS Caralho! Este índio tá de sacanagem. Mas pensando bem, a proposta até
que é boa. Além do mais, estou precisando mesmo dar um tempo de Manaus nem que
seja por uns míseros dias. FECHA
ASPAS
Alguém botou Luís Gonzaga na Juke Box. Carcamano que
estava bebendo no balcão aproximou-se de mim como quem não quer nada e
sentou-se no lugar que era do Índio. Já estava levemente bêbado:
“Essa música é
um saco, véio. Na verdade nunca em toda minha vida gostei de Asa Branca. Sou
obrigado agora a gostar de Asa Branca? Me diga?” Houve uma pausa e depois ele
tornou: “Quando estou aqui nesse bar, sabe Mário, vejo esses estudantes
passarem lá fora, tão jovens e puros e eu me sinto sujo, mas eles olham para
mim e demonstram uma espécie de desejo de estarem aqui nesse lugar, no sujo, aí
eu olho para as pessoas em minha volta nesse bar e olho para dentro de mim
mesmo e vejo uma espécie de inocência imaculada que eu não sei bem explicar... NÃO!
NÃO! CARPENTERS, NÃO, PORRA! É COMO ALGUÉM AZUNHANDO A EPIDERME DA MINHA ALMA! QUEIMANDO
COM MAÇARICO AS MINHAS BOLAS!
Depois mais calmo: “Agora me diga sinceramente, Mário
Augusto, o que há de errado com o Índio, hein? Ele tá mesmo tomando hormônios,
é?”
Todos
já suspeitavam: um Índio com peitos de mulher. Essa era boa. Como já disse, preferi
não comentar. O Índio voltou gingando do banheiro com uma cerveja:
“E aí, Mário Augusto? Pensou bem? Banco tudo. Topas?”
“Parintins nesse mês é um inferno, cara! Quando pretendes
ir?”
“Amanhã mesmo!”
“Bom, assim, né, cê bancando tudo, né... ”
Naquela mesma noite fomos a sua casa para pegar uma
grana. O figura morava com sua avó em um bairro nas quebradas. A avó, uma alcoólatra
e remanescente Baniwa. Um trapo de velha. Vivia para beber. Os netos cuidavam
da grana da sua aposentadoria:
“Oi, vó! Este é o Mário Augusto, amigo meu. Ele é
escritor.”
“Cadê minha pinga, porra!”
“Já acabou aquela, vó?”
“Já acabou aquela, vó?” Repetiu com desdém, a velha.
“Esqueci, mas vou comprar, vó! Entra aí, Mário, fica á
vontade! Não demoro.” Entrei. A casa era pequena e rescendia a cachaça. Olhei
os telhados tristes de zinco, a janela de madeira aberta dando para os fundos
de um quintal mergulhado em escuridão abismal. Sapos zoavam no meu ouvido. A
velha ficou ali me fazendo sala. Olhava para mim como um demônio. Não esqueço
mais de seus olhos pulados, os cabelos desgrenhados; os dentes sujos e estilhaçados.
Um bafo horrivelmente podre de pinga. O quê que eu estava fazendo ali? Pensei. Aí,
assim, do nada, ela levantou a saia dela e me mostrou sua buceta. Uma buceta
terrivelmente cabeluda e fedida:
“Gosta disso, não é filho da puta? Han?” E deu uma
sonora gargalhada. A velha índia era doida e pervertida.
“Minha senhora...”
“Senhora é um caralho! Mete tua pica aqui enquanto meu
neto não chega.”
“Senhora, por favor...”
“Senhora por favor...” Repetiu ela. “São todos uns veados
punheteiros! Anda! Mete essa tua pica aqui antes do Claudionilson voltar.”
Levantei-me assustado de um sofá velho. A velha avançou em mim com a saia
levantada:
“Mete, seu filhodumaégua!” Encurralou-me na parede.
Senti asco. Ela apertou meus colhões pra valer:
“Endurece isso aí, não?” Aí Claudionilson chegou.
“Vó, que é isso? Deixa o cara!”
“Trouxe minha pinga, caralho?”
“Aqui, ó!” Ela avançou na garrafa. Abriu-a com o dente
e deu uma senhora golada nela. Vi os olhos dela brilharem como os de um demônio
saciado.
“Agora diz logo o que tu quer, Claudionilson.”
“Preciso de grana, vó! Pego um barco amanhã para
Parintins.”
“Vai dar o teu rabo por lá, né, filha da puta!”
“Vó, olha os termos!”
“Vó, olha os termos! Quanto tu quer?”
“Aquela grana, vó!”
“Cadê o Marquito?”
“Encontrei com ele há pouco e ele me disse que tava
vindo.”
A velha sorriu mais calma. Tomou outra golada da
cachaça. Levantou-se já cambaleando e meteu-se lá pros fundos. O Índio acendeu
um “preto” e me ofereceu um pega. Perguntei:
“Você explora tua vó, porra?”
“Não. É que ela me deve uma grana.”
Ai chegou o Marquito. Um moleque franzino, branquelo,
de seus quatorze ou quinze anos. Ficou ali parado na porta. Olhei as suas
costelas.
“Entra aí Marquito. A vó já tá vindo.” Os olhos do
Marquito estavam bem vermelhos. Tinha dado um pega legal antes de vir e trazia
um pouco de maconha com ele.
“Entra aí, meu
filho!” Gritou a vó lá de dentro. Marquito pediu licença e entrou. Ficamos ali
naquela sala triste fumando maconha e tomando um pouco daquela pinga. Claudionilson
(finalmente fiquei sabendo seu verdadeiro
nome) falava entusiasmado da ruiva e dos planos da viagem. A velha gania lá
dentro e gritava palavrões sem parar:
“Chupa meu cu, seu merdinha!”
“O que sua vó tem, hein meu?”
“Porra, Mário Augusto, qualé?”
“Entendi agora. Você agencia os garotos, é isso?”
“Minha vó só quer ser feliz. Não sabemos quanto tempo
ela vai durar ainda.”
“Caralho, velho...”
“Chupa o meu cu, caralho!” A velha
gritava. Saí para fumar um pouco lá fora. Olhei a lua e ela era uma bola
redonda e fodida pendurada lá em cima. Um resto de cadela velha apareceu e começou
a latir pra mim. O Índio veio também pra fora fumar comigo. A cadela parou de
latir quando viu a sombra desgraçada do índio:
“O nome dela é Virna e ela é leonina.”
“E daí?”
“Daí que eu conheço todos os signos de fogo, mas
sempre achei esquisito uma leonina. Ou elas dominam ou são dominadas.”
“Não ligo muito pra signos, não. Mas olha, a gente vai
demorar muito aqui?”
“Só o tempo da minha vó terminar lá dentro. Toma mais
um pouco de pinga. Faz frio aqui.”
Horas depois, vimos Marquito sair de
dentro da casa ainda assustado e ajeitando o zíper da sua bermuda de surfista
comprado na Marechal Deodoro. A velha apareceu em seguida. Descabelada, gritou
da porta:
“Toma aí essa
porra!” Jogou um bolo de notas na direção do neto. Ele pegou, contou a grana
toda e depois disse:
“Porra, vó, só isso?”
“Vá tomar no seu cu, Claudionilson!” E bateu a porta
com violência.
“Isso aí vai dar, cara? Ando meio sem grana.” Fui avisando.
“Dá meeesmo! Agora vamos ali tomar a saideira. Depois
deixo você na parada.”
Belíssimo texto Marcio, aguardo ansioso a continuação, muito inspirador seus textos.
ResponderExcluirpensar em itálico é foda... essa tua avó mário, é demais, puta persona!
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